Isabel Pires
De tudo fica um pouco.
Fica
um pouco de tudo.
Talvez
tudo muito pouco.
Mas
um pouco de tudo.
Do
tudo.
Do
absurdo.
Dos
gestos mudos
(restos
inúteis).
Ficou.
Pouco.
Mas ficou.
E
por que se preocupar com este pouco
se
é tão mínimo
se
ocupa tão pouco espaço?
Tão
pouco...
Um
pouco de tudo fica.
Um
pouco fica. De tudo.
Fica
um pouco de saudade
no
lenço branco de renda
e
um pouco de amor
no
perfume seco e forte
que
se exala no ar.
Fica
um pouco de dor
nas
folhas secas, trituradas por teus pés cansados.
Fica
um pouco de cansaço
nos
teus ombros curvados.
Ficou
um pouco de inocência
no
bolo de aniversário
e
uns restos de infância
ficaram
no remédio amargo.
Até
da alegria fica um pouco,
impregnada
nos ferros das calçadas,
nas
almas.
E
um pouco de melancolia
fica
pendurada nas teias de aranha, nas tardes
de
calma.
Um
pouco de solidão
restou
nas mãos fechadas
e
um pouco de ilusão
fica
pairando nas ruas (mal) iluminadas.
Muito,
muito pouco.
E
na noite vazia
sempre
fica um pouco do dia: talvez saudade, talvez cansaço.
Na
poeira suspensa no ar
fica
um pouco de perplexidade.
E
diante do mar, encolhidos,
ficam
os restos de toda mesquinhez,
transformados
em humildade.
E
em toda jornada
fica
um pouco da volta.
Em
toda janela
um
pouco fica de espera.
Um
pouco de esperança
em
cada porta aberta.
E
mesmo um traço de humanidade
fica
gravado no cimento armado.
E
os ventos não o apagam.
E
as águas não o dissolvem.
E
os passos não o desfazem.
Um
pouco da rosa
fica
no sangue da ferida.
Um
pouco de vida
se
esvai no fio da morte.
E
fica.
E
sempre fica um pouco de tudo,
teimoso,
absurdo.
Um
pouco sem sentido,
um
pouco dolorido.
Um
pouco louco.
Um
pouco torto.
Um
pouco tão mínimo,
minucioso.
Até
medroso.
Tão
pouco...
Mas
que sempre incomoda
um pouco.
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