sábado, 17 de dezembro de 2022

Pouco tudo (Para Carlos Drummond de Andrade)

Isabel Pires

De tudo fica um pouco.

Fica um pouco de tudo.

Talvez tudo muito pouco.

Mas um pouco de tudo.

Do tudo.

Do absurdo.

Dos gestos mudos

(restos inúteis).

Ficou.

Pouco. Mas ficou.

E por que se preocupar com este pouco

se é tão mínimo

se ocupa tão pouco espaço?

Tão pouco...

Um pouco de tudo fica.

Um pouco fica. De tudo.

Fica um pouco de saudade

no lenço branco de renda

e um pouco de amor

no perfume seco e forte

que se exala no ar.

Fica um pouco de dor

nas folhas secas, trituradas por teus pés cansados.

Fica um pouco de cansaço

nos teus ombros curvados.

Ficou um pouco de inocência

no bolo de aniversário

e uns restos de infância

ficaram no remédio amargo.

Até da alegria fica um pouco,

impregnada nos ferros das calçadas,

nas almas.

E um pouco de melancolia

fica pendurada nas teias de aranha, nas tardes

de calma.

Um pouco de solidão

restou nas mãos fechadas

e um pouco de ilusão

fica pairando nas ruas (mal) iluminadas.

Muito, muito pouco.

E na noite vazia

sempre fica um pouco do dia: talvez saudade, talvez cansaço.

Na poeira suspensa no ar

fica um pouco de perplexidade.

E diante do mar, encolhidos,

ficam os restos de toda mesquinhez,

transformados em humildade.

E em toda jornada

fica um pouco da volta.

Em toda janela

um pouco fica de espera.

Um pouco de esperança

em cada porta aberta.

E mesmo um traço de humanidade

fica gravado no cimento armado.

E os ventos não o apagam.

E as águas não o dissolvem.

E os passos não o desfazem.

Um pouco da rosa

fica no sangue da ferida.

Um pouco de vida

se esvai no fio da morte.

E fica.

E sempre fica um pouco de tudo,

teimoso, absurdo.

Um pouco sem sentido,

um pouco dolorido.

Um pouco louco.

Um pouco torto.

Um pouco tão mínimo,

minucioso.

Até medroso.

Tão pouco...

Mas que sempre incomoda

um pouco.

 

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