quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Sensitiva

 Isabel Pires

Com essa forma etérea

de que poucos são dotados

ainda que de carne e osso

mas tão transparente

que te podem ver a alma

e desvendar-te os segredos.

 

Com essa forma assim diluída,

espalhada pelos cantos da casa

essa forma mansa de pisar

de tocar os objetos

as coisas as pessoas:

energicamente.

 

Com essa forma derramada

de olhar rasgadamente

através das carnes, das mentes, das intenções.

Sem disfarces.

Como uma criança olha uma ferida aberta

e uma flor se abrindo

da mesma forma – sem receios.

 

Com essa forma vaga, difusa, sensitiva

que já pressente tudo ao redor.


sábado, 9 de agosto de 2025

Beira de asfalto

 Isabel Pires

 

Uma flor nasceu no meio da rua.

O asfalto cedeu, para deixá-la apontar

sobre a nesga de terra arenosa.

Não era uma flor sem graça,

dessas que brotam à beira do asfalto,

cor da fuligem do óleo diesel das máquinas.

Era uma rosa,

repolhuda e vermelha.

Os carros reduziam a velocidade,

faziam fila

e passavam ao largo,

embora ela estivesse bem no meio da rua.

Foi preciso chamar os bombeiros.

Eles vieram, cercaram a rosa

com uma pequena cerca de dez centímetros de altura.

Na frente da flor

colocaram um cartaz:

CUIDADO

HÁ UMA ROSA NA ESTRADA

 

Luar

Isabel Pires

Há uma lua no céu

redonda e amarela

aninhada entre nuvens prateadas

rindo cheio da miséria absoluta dos homens.

Lois Lane

  Isabel Pires Agora mesmo vi um pedaço da capa, balançando perto da janela. Disseram que não, que tinha sido mera impressão, e que era apen...