Isabel Pires
O ídolo ruiu aos pedaços:
o último idólatra
reuniu os cacos
e atirou-os ao mar.
O ídolo não ruiu:
continua intacto.
Quem está em pedaços
Isabel Pires
O ídolo ruiu aos pedaços:
o último idólatra
reuniu os cacos
e atirou-os ao mar.
O ídolo não ruiu:
continua intacto.
Quem está em pedaços
Isabel
Pires
Nós,
cheios de nós, amarras e farras.
Nós,
que sabíamos o que queríamos
e não sabíamos nada.
Isabel Pires
Um ponto no espaço
procura onde aportar.
Diz: é aqui. Não, é lá.
E sem se resolver,
o ponto, de tanto pontilhar o ar,
já
não é mais ponto, é
uma reta quebrada.
Isabel
Pires
SANHA DE SANGUE
SEDE DE SEDA
SANHA DE SANGUE
SEDE DE SEDA
SANHA DE SEDA
SEDE DE SANGUE
Isabel Pires
Os ídolos são furados
para Zaratustra, eles cheiram mau
Os ídolos estão distantes
e não precisam conhecer, como nós, o mal
Os ídolos são insensatos
não tem coerência, nem lógica, nem sal
Os ídolos são insanos
mas não se contaminam com a nossa loucura total
Os ídolos não existem
mas nos perseguem na nossa insônia sempre igual
Os ídolos são egoístas
e querem nossa alma
(isso, para eles, é vital)
Os ídolos precisam ser destruídos
Isabel Pires
I
Uma
mulher está no ponto de ônibus.
Uma
mulher espera o ônibus
com
uma sacola, não, duas
e
enquanto pensa não vê as sacolas
não
vê a demora
mas
baixando o olhar
se lembra
de consultar o tempo
e
desde então não esquece
que
o ônibus demora
(os
pivetes estão de olho nas sacolas).
A
mulher consulta o tempo
a toda
hora no ponto do ônibus que demora
passa
as mãos nos cabelos
porque
lembrou-se que está ventando
e
depois de consultar mais uma vez o tempo
resolve
prender os cabelos
(por
um momento esquece dos pivetes).
Enquanto
tenta contra o vento
amarrar
os cabelos fartos
o
ônibus enfim aparece
e
ela deixa os cabelos pra lá.
Mas
o ônibus, com pressa,
ou
com preguiça de parar,
deixa
no ponto a mulher plantada
que,
lembrando-se das sacolas e dos pivetes,
fica
danada.
Mas
um consolo: devagar, bem atrás do ônibus,
surge
a salvação – um táxi!
Quase
a mulher nem precisa dar com a mão.
Quanta
gentileza!
O
táxi para bem ao seu lado.
Os
pivetes, decepcionados,
observam
as sacolas entrando no táxi.
— Rápido, moço! Estou com pressa.
No sinal, o ônibus parado,
e a mulher sorri, vingativa,
porque irá, ela, deixar o ônibus na estrada.
Mas o táxi entra num atalho
“— Por aqui é meio caminho andado!”
e a mulher vê o ônibus zarpar, incoformada.
O táxi deu a volta no quarteirão
subiu o viaduto e depois desceu
torceu-se todo pelas ruas
e a mulher de novo se lembrou de consultar o tempo
e a toda hora olhava pra trás
vendo se via o ônibus no rastro de vento
que deixava o táxi
(nem olhava mais pra frente).
— Chegamos! – acordou-a o motorista do táxi.
E a freada bruta foi necessária
para que não esbarrassem, mulher, sacolas e táxi,
no ônibus parado bem em frente à porta da casa.
Isabel Pires
Façam tudo.
Façam guerra,
façam amor.
Façam da vida uma merda,
um penico de cocô.
Façam tudo.
Matem.
Depois, ponham luto.
Joguem a vida como um brinquedo,
um jogo de ludo.
Sim, façam tudo.
Destrocem as mentes
e os ventres.
Arrasem a cidades.
Amordacem a felicidade.
Façam da vida uma ameaça.
Façam pirraça,
trapaça.
Comemorem com cachaça.
Sim, façam tudo.
Até o absurdo
de ver a vida em volta:
como ela é bonita
e complicada.
Façam tudo. Ou, quem sabe,
não façam nada.
Façam. Não façam.
Deixem por fazer - até o amor.
Mas, com licença:
façam tudo - mas façam o favor.
Não pisem na grama.
Não maltratem as crianças
Isabel Pires
Antes
eram as trevas, o silêncio.
E a
vida rebentou num sopro
para
perturbar a calmaria.
Isabel
Pires
Do arrecife
o arremesso
arrebatou
o ar
e se abateu
na água
arrebentando
as algas
Isabel
Pires
Diz a noite que chegou pra perdoar
o dia
e ainda trouxe consigo uma lua
cheia.
Noite de negro inda querendo ser
faceira
num baile que não tinha nenhuma
alegria.
Noite de telhado onde reina a
gataria
assustando a noite medrosa que se
encolhia
debaixo do piscar de infinitas
estrelas
que, serenas, participavam da
falseta.
E a lua, trêmula, iluminando a
sarjeta
dos bêbados babados que esperavam o
dia
indiferentes à baba e à própria
sujeira.
Se a noite reconhecesse – que bom
seria –
que não tem brilho, é apenas uma noite feia
e falsa e só. Apenas uma noite fria.
Isabel Pires
Um mundo nu
um menino no mundo
uma terra descalça
um pé na terra
um mar sem rumo
um veleiro no mar
um sonho que acabou
indo sonhando
um sol sobre a água
ilumina o afogado
uma vela chorando
aos pés do altar
Isabel Pires
Estamos presos no tempo
e pelo tempo
sem saber
Isabel Pires
O menino que brincava na rua
tinha na mão uma flor amarela
Era tímido, mas queria a lua.
E um dia ele disse: “Vou buscar ela”.
Partiu, então, numa longa jornada.
Conheceu estradas, conheceu mundos,
passou por terras feias e encantadas,
viu seres lindos e seres imundos.
Mas nunca desistiu do seu querer.
Olhava para a lua, a querendo ainda,
nem que custasse-lhe todo o seu ser.
Noite de lua, não tinha fronteiras.
Foi assim que, para ter a lua linda,
Isabel
Pires
Um momento manso
minuto último
de um mundo em paz.
Depois, passa a paz,
os instantes de antes
não existem mais.
Homens de braços dados
abraços errados
não para amar.
Unidos, munidos de ódio,
se fazem fortes
para pisar em flores.
Um segundo, porém,
e a noite vem
desfazendo o abraço dos homens-soldados
que travam então outra luta
agora consigo mesmos.
A sós, no campo de batalha,
enfrentando fantasmas,
tentando destruir demônios
que moram no fundo do seu eu.
Isabel Pires Agora mesmo vi um pedaço da capa, balançando perto da janela. Disseram que não, que tinha sido mera impressão, e que era apen...