sábado, 30 de novembro de 2024

Idolatria ou idiolatria?

 Isabel Pires

O ídolo ruiu aos pedaços:

o último idólatra

reuniu os cacos

e atirou-os ao mar.

 

O ídolo não ruiu:

continua intacto.

Quem está em pedaços

é o idólatra.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Geração perdida

 

Isabel Pires

Nós,

cheios de nós, amarras e farras.

Nós,

que sabíamos o que queríamos

e não sabíamos nada.


Errante

 Isabel Pires

 

Um ponto no espaço

procura onde aportar.

Diz: é aqui. Não, é lá.

E sem se resolver,

o ponto, de tanto pontilhar o ar, já

não é mais ponto, é

uma reta quebrada.


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Sanha de sede

 

Isabel Pires

SANHA DE SANGUE

SEDE DE SEDA

SANHA DE SANGUE

SEDE DE SEDA

SANHA DE SEDA

SEDE DE SANGUE


Os ídolos

 Isabel Pires

Os ídolos são furados

para Zaratustra, eles cheiram mau

Os ídolos estão distantes

e não precisam conhecer, como nós, o mal

Os ídolos são insensatos

não tem coerência, nem lógica, nem sal

Os ídolos são insanos

mas não se contaminam com a nossa loucura total

Os ídolos não existem

mas nos perseguem na nossa insônia sempre igual

Os ídolos são egoístas

e querem nossa alma  (isso, para eles, é vital)

Os ídolos precisam ser destruídos

antes que nos destruam, roubando até o nosso corporal
 

Contradições do Capitalismo

 Isabel Pires

I

Uma mulher está no ponto de ônibus.

Uma mulher espera o ônibus

com uma sacola, não, duas

e enquanto pensa não vê as sacolas

não vê a demora

mas baixando o olhar

se lembra de consultar o tempo

e desde então não esquece

que o ônibus demora

(os pivetes estão de olho nas sacolas).

 

A mulher consulta o tempo

a toda hora no ponto do ônibus que demora

passa as mãos nos cabelos

porque lembrou-se que está ventando

e depois de consultar mais uma vez o tempo

resolve prender os cabelos

(por um momento esquece dos pivetes).

 

Enquanto tenta contra o vento

amarrar os cabelos fartos

o ônibus enfim aparece

e ela deixa os cabelos pra lá.

Mas o ônibus, com pressa,

ou com preguiça de parar,

deixa no ponto a mulher plantada

que, lembrando-se das sacolas e dos pivetes,

fica danada.

 

Mas um consolo: devagar, bem atrás do ônibus,

surge a salvação – um táxi!

Quase a mulher nem precisa dar com a mão.

Quanta gentileza!

O táxi para bem ao seu lado.

Os pivetes, decepcionados,

observam as sacolas entrando no táxi.

— Rápido, moço! Estou com pressa.

No sinal, o ônibus parado,

e a mulher sorri, vingativa,

porque irá, ela, deixar o ônibus na estrada.

 

Mas o táxi entra num atalho

“— Por aqui é meio caminho andado!”

e a mulher vê o ônibus zarpar, incoformada.

O táxi deu a volta no quarteirão

subiu o viaduto e depois desceu

torceu-se todo pelas ruas

e a mulher de novo se lembrou de consultar o tempo

e a toda hora olhava pra trás

vendo se via o ônibus no rastro de vento

que deixava o táxi

(nem olhava mais pra frente).

 

— Chegamos! – acordou-a o motorista do táxi.

E a freada bruta foi necessária

para que não esbarrassem, mulher, sacolas e táxi,

no ônibus parado bem em frente à porta da casa.


Canção boba e um tanto inútil em defesa da fragilidade

 Isabel Pires

Façam tudo.

Façam guerra,

façam amor.

Façam da vida uma merda,

um penico de cocô.

Façam tudo.

Matem.

Depois, ponham luto.

Joguem a vida como um brinquedo,

um jogo de ludo.

Sim, façam tudo.

Destrocem as mentes

e os ventres.

Arrasem a cidades.

Amordacem a felicidade.

Façam da vida uma ameaça.

Façam pirraça,

trapaça.

Comemorem com cachaça.

Sim, façam tudo.

Até o absurdo

de ver a vida em volta:

como ela é bonita

e complicada.

Façam tudo. Ou, quem sabe,

não façam nada.

Façam. Não façam.

Deixem por fazer - até o amor.

Mas, com licença:

façam tudo - mas façam o favor.

Não pisem na grama.

Não maltratem as crianças

nem as flores.

 

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Caos

 

Isabel Pires

Antes eram as trevas, o silêncio.

E a vida rebentou num sopro

para perturbar a calmaria.


O salto

 

Isabel Pires

 

Do arrecife

o arremesso

arrebatou

o ar

e se abateu

na água

arrebentando

as algas

Soneto noturno soturno

Isabel Pires

 

Diz a noite que chegou pra perdoar o dia

e ainda trouxe consigo uma lua cheia.

Noite de negro inda querendo ser faceira

num baile que não tinha nenhuma alegria.

 

Noite de telhado onde reina a gataria

assustando a noite medrosa que se encolhia

debaixo do piscar de infinitas estrelas

que, serenas, participavam da falseta.

 

E a lua, trêmula, iluminando a sarjeta

dos bêbados babados que esperavam o dia

indiferentes à baba e à própria sujeira.

 

Se a noite reconhecesse – que bom seria –

que não tem brilho, é apenas uma noite feia

e falsa e só. Apenas uma noite fria.


Vidro quebrado

 Isabel Pires

 

Um mundo nu

um menino no mundo

uma terra descalça

um pé na terra

um mar sem rumo

um veleiro no mar

um sonho que acabou

indo sonhando

um sol sobre a água

ilumina o afogado

uma vela chorando

aos pés do altar


Tempo atemporal

 Isabel Pires

 

Estamos presos no tempo

e pelo tempo

sem saber

quanto tempo ainda temos

domingo, 3 de novembro de 2024

Soneto para um menino-estrela

 Isabel Pires

O menino que brincava na rua

tinha na mão uma flor amarela

Era tímido, mas queria a lua.

E um dia ele disse: “Vou buscar ela”.

 

Partiu, então, numa longa jornada.

Conheceu estradas, conheceu mundos,

passou por terras feias e encantadas,

viu seres lindos e seres imundos.

 

Mas nunca desistiu do seu querer.

Olhava para a lua, a querendo ainda,

nem que custasse-lhe todo o seu ser.

 

Noite de lua, não tinha fronteiras.

Foi assim que, para ter a lua linda,

O menino partiu, virando estrela.


Guerra interior

 

Isabel Pires

Um momento manso

minuto último

de um mundo em paz.

Depois, passa a paz,

os instantes de antes

não existem mais.

Homens de braços dados

abraços errados

não para amar.

Unidos, munidos de ódio,

se fazem fortes

para pisar em flores.

Um segundo, porém,

e a noite vem

desfazendo o abraço dos homens-soldados

que travam então outra luta

agora consigo mesmos.

A sós, no campo de batalha,

enfrentando fantasmas,

tentando destruir demônios

que moram no fundo do seu eu.


Lois Lane

  Isabel Pires Agora mesmo vi um pedaço da capa, balançando perto da janela. Disseram que não, que tinha sido mera impressão, e que era apen...