sexta-feira, 1 de maio de 2026

Lois Lane

 Isabel Pires

Agora mesmo vi um pedaço da capa, balançando perto da janela. Disseram que não, que tinha sido mera impressão, e que era apenas a cortina, refletindo os raios vermelhos do sol. Mas eu sei, era ele. Certamente tem receio de vir me ver, assim como estou. O tempo passou para mim, não passou para ele. Minhas rugas e meus cabelos de prata devem entristecê-lo, até magoá-lo. Outro dia foi a campainha. Pensei ser ele, em seu humano disfarce. Mas me garantiram que não havia, parado à porta, nenhum sujeito tímido, desajeitado e míope. As pessoas à minha volta se espantam, quando aceno para a parede. Porque sei que de algum ponto do céu ele me observa, talvez oculto entre nuvens pacatas. E quando os dias se alongam, ficam compridos de não se poder aturar, sei também que é ele – a Terra, suave girassol azul sobre seus ombros – retardando em ínfimos segundos a nossa rota no espaço.


Sede

Isabel Pires

Incisivo, o dente começou a cutucar-lhe a mente sobre o que faria com aquela parede. Quem sabe, usando o talher pudesse, na parede, abrir janelas. Ou nela pendurar quadros – o que era quase o mesmo. Talvez, abrir uma porta, ainda que essa porta desse para o vazio. Surda como uma bolha não sabe ser, espelho opaco, porém, a parede continuava lá, como um arrepio, a encurtar-lhe o caminhO


Hai Kais

Isabel Pires 


Hai kais à moda pássara


Menino chorando
gaiola aberta 
passarinho voando 

Gato sorri feliz
gaiola aberta 
passarinho por um triz... 

Bico torto
asa inerte
pássaro morto 


Hai kais de sonho

Menino dormiu

sonhou

acordou


Homem acordou

sonhou

dormiu



quarta-feira, 29 de abril de 2026

Contraste urbano às quatro horas da tarde

                                                                                                                                                    

Isabel Pires

sobretudo pipas coloridas 

em guerra no céu 

atrás delas janelas 

envidraçadas 

refletem o azul intenso 

garantia de tempo bom 

sobre o Rio de Janeiro


Com Netuno em alto-mar

Isabel Pires

Costumava sonhar com o mar – um mar revolto, em fúria, de ondas gigantes, inquietas, que devoravam tudo, tragando casas, pontes, pessoas, bichos. Outras vezes, estava à deriva, em mal alto, náufraga, sem ponto onde ancorar. Minha porção portuguesa, feita de sal, nessas ocasiões acordava tremendo, e, banhada em suor, secretamente orava a Netuno, rogando clemência. Consultei o oráculo, às páginas mil e tantas: o mar era o inconsciente. Força poderosa, selvagem. Incontrolável. Ontem sonhei de novo com o mar. Mas desta vez foi diferente. Havia barquinhos, delicadamente pousados sobre a face plácida das águas, e o mar era um imenso cartão-postal em 3D. Suave luz arejava a paisagem, da qual eu podia dispor à vontade. Graduava a luz, misturando os tons. Trocava os barcos de lugar. Com um dedo, dava-lhes um peteleco, e eles viravam. Acordei trêmula, soluçando.


terça-feira, 14 de outubro de 2025

Isto não é um privilégio tijucano

Isabel Pires

Ninguém sabe
se foi por causa dos gatos
que os pombos foram embora
ou se pela falta da maresia

O Dr. Hans costumava alimentá-los
com miolo de pão e milho
mas o Dr. Hans também se foi
ninguém sabe
se antes ou depois dos pombos
o certo
é que levou consigo
lembranças de outro além-mar
que não o das cruzes de Malta
estendidas nas janelas
em domingos de Maraca,
chope e pizzaria

Os pombos talvez não aprovassem
a falsa maresia
que a baía da Guanabara
sopra por sobre tudo
– vilas, praças, prédios,
as ruas, as raras avenidas,
o Borel, as igrejas –
esbatendo-se no Maciço
arrepiando Joana em seu leito obscuro
derrubando quadros
batendo portas
árvores desmemoriadas pela ventania

Agora os pardais – os pequenos pardais –
somente eles
estragam as pinturas dos carros
estacionados ao longo das vias

(Mas isto não é um privilégio tijucano) 

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Sensitiva

 Isabel Pires

Com essa forma etérea

de que poucos são dotados

ainda que de carne e osso

mas tão transparente

que te podem ver a alma

e desvendar-te os segredos.

 

Com essa forma assim diluída,

espalhada pelos cantos da casa

essa forma mansa de pisar

de tocar os objetos

as coisas as pessoas:

energicamente.

 

Com essa forma derramada

de olhar rasgadamente

através das carnes, das mentes, das intenções.

Sem disfarces.

Como uma criança olha uma ferida aberta

e uma flor se abrindo

da mesma forma – sem receios.

 

Com essa forma vaga, difusa, sensitiva

que já pressente tudo ao redor.


Lois Lane

  Isabel Pires Agora mesmo vi um pedaço da capa, balançando perto da janela. Disseram que não, que tinha sido mera impressão, e que era apen...