Isabel
Pires
Costumava sonhar com o mar – um mar revolto,
em fúria, de ondas gigantes, inquietas, que devoravam tudo, tragando casas,
pontes, pessoas, bichos. Outras vezes, estava à deriva, em mal alto, náufraga,
sem ponto onde ancorar. Minha porção portuguesa, feita de sal, nessas ocasiões
acordava tremendo, e, banhada em suor, secretamente orava a Netuno, rogando
clemência. Consultei o oráculo, às páginas mil e tantas: o mar era o
inconsciente. Força poderosa, selvagem. Incontrolável. Ontem sonhei de novo com
o mar. Mas desta vez foi diferente. Havia barquinhos, delicadamente pousados
sobre a face plácida das águas, e o mar era um imenso cartão-postal em 3D.
Suave luz arejava a paisagem, da qual eu podia dispor à vontade. Graduava a
luz, misturando os tons. Trocava os barcos de lugar. Com um dedo, dava-lhes um
peteleco, e eles viravam. Acordei trêmula, soluçando.
Nenhum comentário:
Postar um comentário