sábado, 26 de outubro de 2024

“Eu, hein, Zé?”

 Isabel Pires

Alguma coisa

despregada das coisas.

As mônadas de Leibniz.

Ou as baratas.

Tem até uma trepadeira

que se enrosca no teu pescoço.

Morreremos todos enforcados.

Mas, por enquanto,

a vida passando

a gente bebe

e fuma todas as fumaças.

Das chaminés. Dos canos

de descarga dos ônibus suados.

Um sapo foi crucificado

e nem sabe por quê.

Embora a lua continue bela.

Laboratório cultural

 Isabel Pires

 

A cultura fermenta sobre telas

apodrecidas

que desenham o escárnio

em cores vivas

enquanto o cientista

separa politicamente

o correto do incorreto

hermeticamente fechados

em pequenos vidros

rotulados

etiquetados

analisados.

As cobaias humanas já formam

uma massa estúpida, informe,

se amontoando sem sentido

horizontal ou vertical

norte ou sul

em gaiolas cada vez mais altas.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Viver proletário

 Isabel Pires

 

O jeito de namorar proletário

sai do serviço suado

quando é mulher, carrega sacola.

 

Encontro marcado no ponto de ônibus.

Se chover?

Sombrinha dá pra dois.

Homem não carrega guarda-chuva

nem filho na barriga

por isso chega pra lá

que esse rela-rela não dá.

 

“Quê que tem, benzinho?”

 

Motel é feito de mato.

Mas, antes, o ônibus

vem empapuçado.

 

Um olho no ônibus

outro no outro.

Que fazer?

O jeito é se desprender

Tão bom tava esse aconchego...

 

“Tá vindo aí... Larga desse chamego.”

 

Que fazer?

Pupila se encolhe de medo.

E o pai da moça, zangado:

“Eu mato! Eu mato!”

 

A moça, só, no ponto de ônibus:

sombrinha dentro da bolsa

sacola numa mão

sacola na outra

olho no ônibus e no tamanho da fila.

E dentro da barriga:

filho ou filha?

É o jeito viver, proletário.


Sede viva

Isabel Pires

 

Este pão

que é corpo

este vinho

que é sangue

esta fome

esta sede

esta morte

que é vida

esta vida

que é vinho

este vinho

que é vivo 


Estrelas terrestres

Isabel Pires

 

No céu as estrelas brilham

na terra estrelas se multiplicam

sem brilho sem cor

anônimas

como uma pedrinha de strass

no vestido de uma madama 


Deserto

 Isabel Pires

 

Eu estou só.

O deserto é imenso.

A areia é muita.

E toda horizontal.

Há muita luz, calor.

Quentura áspera. 

Chicote, o vento.

As estrelas chegam e são muitas.

Mas distantes.

Frio. Corta. Queima.

Eu estou só.


segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Esquecências

 Isabel Pires

 

 Querubins

(doces) querências

 não querências

 mal-querências

Um gosto de querer

sob um sol quente

 Quentura

Cálidos e quentes

candidamente aquecidos

 aquecimento

Querendo esquecer

esquecimento.

Querer, não querer

querendo.

O quê?

A espera

 

Isabel Pires

 

Já foi o vento.

Já foram todos os sons.

Restou-nos Drummond

e sua doçura 

cruel

(chocante).

E Sodoma e Gomorra

nos lamentam e choram

por nossos filhos mortos

na Grande Luta da

vida contra a vida.

Do corpo contra o espírito.

Do pão contra a fome.

O pão é pouco,

mas os irmãos sabem dividi-lo.

Quando é muito,

a sobra enche o estômago

dos que já estão fartos.

E os famintos choramingam

pelos farelos.

E não há o milagre,

embora cristãos e ateus

esperem por ele.         

 

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Esse cálice

 Isabel Pires

 

Amargo, amargo, amargo

Mas eu tenho que beber

esse cálice de vinho

esse cálice de vinagre?

Vinagre não é amargo

vinagre só é amargo

lá atrás daquela

Porta. A porta. Bateu.

O que é isso, menina? – Vem a voz da avó.

Cuidado. A garrafa

a garrafa de vinagre

a garrafa de plástico de vinagre

a garrafa de vinagre de plástico.

Não, tá tudo errado.

Esse vinho, não era melhor

colocar um pouco de açúcar?

Gente grande não bota açúcar em vinho            

nem em vinagre

a única coisa que eles botam

em vinagre

é carne.

Carne sangrando, fresquinha

pendurada no madeiro.


Noites

 Isabel Pires

 

Atrás de todo crepúsculo se esconde uma noite

às vezes fria, às vezes quente

às vezes nua, às vezes vestida de gente.

 

Desceu a noite como uma pesada cortina

que, contudo, descortinava um cenário de limites

perdidos e fundidos em trevas. O negror,

onipresente, refugiava-se nos cantos, sem ângulos,

infindos.

 

A noite se enrodilhou, muito quieta e

silenciosa, no bojo da Treva. E ali, ficou, muda,

imóvel, até que veio a Alvorada e

a espantou com o alarido da Luz.


sábado, 12 de outubro de 2024

sábado, 5 de outubro de 2024

Asfalto 2

 

Isabel Pires

 

O carro, guloso de asfalto,

engoliu o moleque,

vomitando na vida.

Capital imoral

Isabel Pires

 

Os homens de bem

têm grandes barrigas.

Os homens sem bens

não as têm.

Os homens de grandes barrigas

não as enchem de lombriga.

Os homens sem barrigas

As têm vazias.

Os homens que têm

esfregam as barrigas.

Os homens do sem

esquentam as mãos frias.

Os homens das barrigas

não gostam de brigas.

Os homens sem barrigas

se defendem com barricas.

Ter barriga é imoral

e não ter é pecado capital. 


Sedução felina

Isabel Pires

 

Os gatos

passeiam livremente pelas ruas

às vezes escuras

enquanto as gatas

preguiçosas e gordas

os espiam deitadas

nas suas grandes e macias almofadas.

 

Não sabem

os gatos que passeiam pelos muros

amantes do escuro

que são espiados

por gatas que os chamam

piscando e afiando as garras

pra suas grandes e macias almofadas.



terça-feira, 1 de outubro de 2024

Asfalto

Isabel Pires

 

Este asfalto é bem triste a esta hora.

Cadê as pessoas que aqui estavam?

De que me adianta estar aqui e agora

se não posso ver as pessoas

e olhá-las loucamente nos olhos?

Este asfalto é, na verdade, bem triste

e desolado 

e solo. 


A montanha azul

Isabel Pires

O mar secou.

O que será do farol

que ficou sem sentido?

O mar secou.

O que será do porto

que ficou perdido?

O mar secou.

A praia ficará solitária,

o cais, esquecido.

A ilha naufragou

porque o mar secou. 

O sol debandou

porque o mar secou. 

O pescador chorou

porque o mar secou. 

Por que o mar secou? 

O mar foi se esconder

dentro das montanhas de Minas

e é por isso que as montanhas

estão mais verdes, de um verde mais vivo

com uns leves tons de azul fatídico. 


Lois Lane

  Isabel Pires Agora mesmo vi um pedaço da capa, balançando perto da janela. Disseram que não, que tinha sido mera impressão, e que era apen...