Isabel Pires
O jeito de namorar proletário
sai do serviço suado
quando é mulher, carrega sacola.
Encontro marcado no ponto de ônibus.
Se chover?
Sombrinha dá pra dois.
Homem não carrega guarda-chuva
nem filho na barriga
por isso chega pra lá
que esse rela-rela não dá.
“Quê que tem, benzinho?”
Motel é feito de mato.
Mas, antes, o ônibus
vem empapuçado.
Um olho no ônibus
outro no outro.
Que fazer?
O jeito é se desprender
Tão bom tava esse aconchego...
“Tá vindo aí... Larga desse chamego.”
Que fazer?
Pupila se encolhe de medo.
E o pai da moça, zangado:
“Eu mato! Eu mato!”
A moça, só, no ponto de ônibus:
sombrinha dentro da bolsa
sacola numa mão
sacola na outra
olho no ônibus e no tamanho da fila.
E dentro da barriga:
filho ou filha?
É o jeito viver, proletário.
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