quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Viver proletário

 Isabel Pires

 

O jeito de namorar proletário

sai do serviço suado

quando é mulher, carrega sacola.

 

Encontro marcado no ponto de ônibus.

Se chover?

Sombrinha dá pra dois.

Homem não carrega guarda-chuva

nem filho na barriga

por isso chega pra lá

que esse rela-rela não dá.

 

“Quê que tem, benzinho?”

 

Motel é feito de mato.

Mas, antes, o ônibus

vem empapuçado.

 

Um olho no ônibus

outro no outro.

Que fazer?

O jeito é se desprender

Tão bom tava esse aconchego...

 

“Tá vindo aí... Larga desse chamego.”

 

Que fazer?

Pupila se encolhe de medo.

E o pai da moça, zangado:

“Eu mato! Eu mato!”

 

A moça, só, no ponto de ônibus:

sombrinha dentro da bolsa

sacola numa mão

sacola na outra

olho no ônibus e no tamanho da fila.

E dentro da barriga:

filho ou filha?

É o jeito viver, proletário.


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