sábado, 24 de dezembro de 2022

Terra é pão

Isabel Pires


Terra

é

pão.

 

Vamos dividir a terra?

 

Vamos

di   vi   dir

a terra.

 

V A  M  O  S

DI VI DIR

T  E  R  R  A

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Flagrantes noturnos

Isabel Pires

I

As luzes da cidade

rasgam meus olhos

que se tornam vermelho-de-sangue.

II

O carro desliza

sobre o tapete negro do asfalto.

À sua frente, piscam as luzes dos carros

que vêm em sentido contrário.

Já é tarde.

III

Passam postes

pedaços de paredes

recortes de calçadas

sem-teto

prostitutas

estudantes

trabalhadores.

Distante de tudo,

os neons coloridos contra o fundo preto.

 IV

Tudo quieto.

A noite está calada.

Esburacando a escuridão,

a lâmina afiada de uma luz

acende-se numa sala.

V

A noite, calada e preta,

dorme debaixo de uma coberta quente.

Nos meios-fios,

em cima das camas,

nos bancos das praças,

sob as marquises,

a noite, calada e preta, envolve tudo

como uma coberta quente.

Faz calor.

VI

Faz calor.

Apesar disso, a fumaça do chuveiro

invade os azulejos, impregnando vapores.

É noite quente.

Mas o chuveiro canta

uma canção de inverno.

É noite.

O chuveiro quente

nina os corpos num acalanto quieto.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

O gato

Isabel Pires

Um gato cinzento

ia andando por um muro um pouco mais cinzento

com passos ritmados abanando a cauda

e eu, cinzenta, ia andando pela calçada molhada

quando vi o gato

quando o gato virou o pescoço pro meu lado

e me viu

e então agitou mais a cauda

quebrando o ritmo dos seus duplos passos

e fugiu assustado

fui um acontecimento para o gato cinzento

que fugiu com o coração quente batendo

mas o que me ficou no cimento

frio e molhado?

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Grego

Isabel Pires

O rapaz sentou-se
cruzou as pernas
cruzou as mãos
franziu a testa
e ficou balançando o pé devagar.
O rapaz sorriu
– seu olho brilhou –
e mansamente falou.
Disse coisas ternas
contou histórias
– algumas belas –
deu a lua de presente
e também o universo
leu alguns versos
se queixou do tempo quente.
E finalmente perguntou
o que eu achava de Eros. 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Ilegível

Isabel Pires

As letras legíveis

das palavras

expressam sentidos

ininteligíveis

 

As letras legíveis

expressam sentidos

ininteligíveis

domingo, 18 de dezembro de 2022

A esquecida

Isabel Pires

A menina

tão pequenina

de maria-chiquinha

tão bonitinha.

 

Depois cresce

e tece

uma história bonita

para suportar a vida.

 

Mas envelhece

e esquece

que um dia viveu.

 

Um belo dia, a menina morreu.

sábado, 17 de dezembro de 2022

Pouco tudo (Para Carlos Drummond de Andrade)

Isabel Pires

De tudo fica um pouco.

Fica um pouco de tudo.

Talvez tudo muito pouco.

Mas um pouco de tudo.

Do tudo.

Do absurdo.

Dos gestos mudos

(restos inúteis).

Ficou.

Pouco. Mas ficou.

E por que se preocupar com este pouco

se é tão mínimo

se ocupa tão pouco espaço?

Tão pouco...

Um pouco de tudo fica.

Um pouco fica. De tudo.

Fica um pouco de saudade

no lenço branco de renda

e um pouco de amor

no perfume seco e forte

que se exala no ar.

Fica um pouco de dor

nas folhas secas, trituradas por teus pés cansados.

Fica um pouco de cansaço

nos teus ombros curvados.

Ficou um pouco de inocência

no bolo de aniversário

e uns restos de infância

ficaram no remédio amargo.

Até da alegria fica um pouco,

impregnada nos ferros das calçadas,

nas almas.

E um pouco de melancolia

fica pendurada nas teias de aranha, nas tardes

de calma.

Um pouco de solidão

restou nas mãos fechadas

e um pouco de ilusão

fica pairando nas ruas (mal) iluminadas.

Muito, muito pouco.

E na noite vazia

sempre fica um pouco do dia: talvez saudade, talvez cansaço.

Na poeira suspensa no ar

fica um pouco de perplexidade.

E diante do mar, encolhidos,

ficam os restos de toda mesquinhez,

transformados em humildade.

E em toda jornada

fica um pouco da volta.

Em toda janela

um pouco fica de espera.

Um pouco de esperança

em cada porta aberta.

E mesmo um traço de humanidade

fica gravado no cimento armado.

E os ventos não o apagam.

E as águas não o dissolvem.

E os passos não o desfazem.

Um pouco da rosa

fica no sangue da ferida.

Um pouco de vida

se esvai no fio da morte.

E fica.

E sempre fica um pouco de tudo,

teimoso, absurdo.

Um pouco sem sentido,

um pouco dolorido.

Um pouco louco.

Um pouco torto.

Um pouco tão mínimo,

minucioso.

Até medroso.

Tão pouco...

Mas que sempre incomoda

um pouco.

 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Vermelho brilhante luar

Isabel Pires

Daqui estou vendo

as gotas coloridas

dos cacos de vidro

na linha do muro

batida de luar.

Ou será a luz do poste?

Azuis, vermelhas, amarelas...

Cor de limão.

O verde-limão me olha com olhos

do Cão Azul de Gabriel Garcia.

Mas não são os gatos

que pulam os muros cheios de cacos?

Daqui estou vendo

o gato azul anil pulando o muro

com as mãos ensanguentadas

de vermelho-brilhante-luar.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Amanhã

Isabel Pires

Amanhã colocarei minha vida em ordem.

Levantarei cedo

e farei café.

Calmamente, tomarei o café e lerei os jornais.

Às nove horas irei à praça

tomar sol, sentir o cheiro das flores.

Levarei o cachorro para passear.

Almoçarei calmamente no horário certo.

Farei a sesta.

À tarde, não pensarei em nada.

Não terei nenhum compromisso.

Sim, a tarde será livre.

À tarde, serei livre.

Talvez apenas para bater perna pelo mundo afora.

Calmamente sem pressa.

No fim do dia quero ir a uma festa.

Tomarei banho de uma hora debaixo do chuveiro e depois não contarei o tempo que levarei para me arrumar.

Não contarei mais o tempo.

Não usarei mais relógio nem perguntarei que horas são.

Sim, amanhã levantarei, não sei mais se cedo, e colocarei minha vida em ordem.


Lois Lane

  Isabel Pires Agora mesmo vi um pedaço da capa, balançando perto da janela. Disseram que não, que tinha sido mera impressão, e que era apen...