Isabel Pires
Terra
é
pão.
Vamos
dividir a terra?
Vamos
di vi
dir
a
terra.
V A M O S
DI
VI DIR
A
T E R R A
Isabel Pires
Terra
é
pão.
Vamos
dividir a terra?
Vamos
di vi
dir
a
terra.
V A M O S
DI
VI DIR
A
T E R R A
Isabel Pires
I
As luzes da cidade
rasgam meus olhos
que se tornam vermelho-de-sangue.
II
O carro desliza
sobre o tapete negro do asfalto.
À sua frente, piscam as luzes dos carros
que vêm em sentido contrário.
Já é tarde.
III
Passam postes
pedaços de paredes
recortes de calçadas
sem-teto
prostitutas
estudantes
trabalhadores.
Distante de tudo,
os neons coloridos contra o fundo preto.
Tudo quieto.
A noite está calada.
Esburacando a escuridão,
a lâmina afiada de uma luz
acende-se numa sala.
V
A noite, calada e preta,
dorme debaixo de uma coberta quente.
Nos meios-fios,
em cima das camas,
nos bancos das praças,
sob as marquises,
a noite, calada e preta, envolve tudo
como uma coberta quente.
Faz calor.
VI
Faz calor.
Apesar disso, a fumaça do chuveiro
invade os azulejos, impregnando vapores.
É noite quente.
Mas o chuveiro canta
uma canção de inverno.
É noite.
O chuveiro quente
nina os corpos num acalanto quieto.
Isabel Pires
Um gato cinzento
ia andando por um muro um pouco mais cinzento
com
passos ritmados abanando a cauda
e
eu, cinzenta, ia andando pela calçada molhada
quando
vi o gato
quando
o gato virou o pescoço pro meu lado
e
me viu
e
então agitou mais a cauda
quebrando
o ritmo dos seus duplos passos
e
fugiu assustado
fui
um acontecimento para o gato cinzento
que
fugiu com o coração quente batendo
mas
o que me ficou no cimento
frio
e molhado?
Isabel Pires
Isabel Pires
As
letras legíveis
das
palavras
expressam
sentidos
ininteligíveis
As
letras legíveis
expressam
sentidos
ininteligíveis
Isabel Pires
A menina
tão pequenina
de maria-chiquinha
tão bonitinha.
Depois cresce
e tece
uma história bonita
para suportar a vida.
Mas envelhece
e esquece
que um dia viveu.
Um belo dia, a menina morreu.
Isabel Pires
De tudo fica um pouco.
Fica
um pouco de tudo.
Talvez
tudo muito pouco.
Mas
um pouco de tudo.
Do
tudo.
Do
absurdo.
Dos
gestos mudos
(restos
inúteis).
Ficou.
Pouco.
Mas ficou.
E
por que se preocupar com este pouco
se
é tão mínimo
se
ocupa tão pouco espaço?
Tão
pouco...
Um
pouco de tudo fica.
Um
pouco fica. De tudo.
Fica
um pouco de saudade
no
lenço branco de renda
e
um pouco de amor
no
perfume seco e forte
que
se exala no ar.
Fica
um pouco de dor
nas
folhas secas, trituradas por teus pés cansados.
Fica
um pouco de cansaço
nos
teus ombros curvados.
Ficou
um pouco de inocência
no
bolo de aniversário
e
uns restos de infância
ficaram
no remédio amargo.
Até
da alegria fica um pouco,
impregnada
nos ferros das calçadas,
nas
almas.
E
um pouco de melancolia
fica
pendurada nas teias de aranha, nas tardes
de
calma.
Um
pouco de solidão
restou
nas mãos fechadas
e
um pouco de ilusão
fica
pairando nas ruas (mal) iluminadas.
Muito,
muito pouco.
E
na noite vazia
sempre
fica um pouco do dia: talvez saudade, talvez cansaço.
Na
poeira suspensa no ar
fica
um pouco de perplexidade.
E
diante do mar, encolhidos,
ficam
os restos de toda mesquinhez,
transformados
em humildade.
E
em toda jornada
fica
um pouco da volta.
Em
toda janela
um
pouco fica de espera.
Um
pouco de esperança
em
cada porta aberta.
E
mesmo um traço de humanidade
fica
gravado no cimento armado.
E
os ventos não o apagam.
E
as águas não o dissolvem.
E
os passos não o desfazem.
Um
pouco da rosa
fica
no sangue da ferida.
Um
pouco de vida
se
esvai no fio da morte.
E
fica.
E
sempre fica um pouco de tudo,
teimoso,
absurdo.
Um
pouco sem sentido,
um
pouco dolorido.
Um
pouco louco.
Um
pouco torto.
Um
pouco tão mínimo,
minucioso.
Até
medroso.
Tão
pouco...
Mas
que sempre incomoda
um pouco.
Isabel Pires
Daqui
estou vendo
as
gotas coloridas
dos
cacos de vidro
na
linha do muro
batida
de luar.
Ou
será a luz do poste?
Azuis, vermelhas, amarelas...
Cor de limão.
O
verde-limão me olha com olhos
do
Cão Azul de Gabriel Garcia.
Mas
não são os gatos
que
pulam os muros cheios de cacos?
Daqui
estou vendo
o
gato azul anil pulando o muro
com
as mãos ensanguentadas
de vermelho-brilhante-luar.
Isabel Pires
Amanhã
colocarei minha vida em ordem.
Levantarei
cedo
e
farei café.
Calmamente, tomarei o café e lerei os jornais.
Às nove horas irei à praça
tomar
sol, sentir o cheiro das flores.
Levarei o cachorro para passear.
Almoçarei
calmamente no horário certo.
Farei
a sesta.
À
tarde, não pensarei em nada.
Não
terei nenhum compromisso.
Sim,
a tarde será livre.
À
tarde, serei livre.
Talvez
apenas para bater perna pelo mundo afora.
Calmamente
sem pressa.
No
fim do dia quero ir a uma festa.
Tomarei
banho de uma hora debaixo do chuveiro e depois não contarei o tempo que levarei
para me arrumar.
Não
contarei mais o tempo.
Não
usarei mais relógio nem perguntarei que horas são.
Sim,
amanhã levantarei, não sei mais se cedo, e colocarei minha vida em ordem.
Isabel Pires Agora mesmo vi um pedaço da capa, balançando perto da janela. Disseram que não, que tinha sido mera impressão, e que era apen...