Isabel Pires
I
As luzes da cidade
rasgam meus olhos
que se tornam vermelho-de-sangue.
II
O carro desliza
sobre o tapete negro do asfalto.
À sua frente, piscam as luzes dos carros
que vêm em sentido contrário.
Já é tarde.
III
Passam postes
pedaços de paredes
recortes de calçadas
sem-teto
prostitutas
estudantes
trabalhadores.
Distante de tudo,
os neons coloridos contra o fundo preto.
Tudo quieto.
A noite está calada.
Esburacando a escuridão,
a lâmina afiada de uma luz
acende-se numa sala.
V
A noite, calada e preta,
dorme debaixo de uma coberta quente.
Nos meios-fios,
em cima das camas,
nos bancos das praças,
sob as marquises,
a noite, calada e preta, envolve tudo
como uma coberta quente.
Faz calor.
VI
Faz calor.
Apesar disso, a fumaça do chuveiro
invade os azulejos, impregnando vapores.
É noite quente.
Mas o chuveiro canta
uma canção de inverno.
É noite.
O chuveiro quente
nina os corpos num acalanto quieto.
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