quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Flagrantes noturnos

Isabel Pires

I

As luzes da cidade

rasgam meus olhos

que se tornam vermelho-de-sangue.

II

O carro desliza

sobre o tapete negro do asfalto.

À sua frente, piscam as luzes dos carros

que vêm em sentido contrário.

Já é tarde.

III

Passam postes

pedaços de paredes

recortes de calçadas

sem-teto

prostitutas

estudantes

trabalhadores.

Distante de tudo,

os neons coloridos contra o fundo preto.

 IV

Tudo quieto.

A noite está calada.

Esburacando a escuridão,

a lâmina afiada de uma luz

acende-se numa sala.

V

A noite, calada e preta,

dorme debaixo de uma coberta quente.

Nos meios-fios,

em cima das camas,

nos bancos das praças,

sob as marquises,

a noite, calada e preta, envolve tudo

como uma coberta quente.

Faz calor.

VI

Faz calor.

Apesar disso, a fumaça do chuveiro

invade os azulejos, impregnando vapores.

É noite quente.

Mas o chuveiro canta

uma canção de inverno.

É noite.

O chuveiro quente

nina os corpos num acalanto quieto.

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