Isabel Pires
I
Uma
mulher está no ponto de ônibus.
Uma
mulher espera o ônibus
com
uma sacola, não, duas
e
enquanto pensa não vê as sacolas
não
vê a demora
mas
baixando o olhar
se lembra
de consultar o tempo
e
desde então não esquece
que
o ônibus demora
(os
pivetes estão de olho nas sacolas).
A
mulher consulta o tempo
a toda
hora no ponto do ônibus que demora
passa
as mãos nos cabelos
porque
lembrou-se que está ventando
e
depois de consultar mais uma vez o tempo
resolve
prender os cabelos
(por
um momento esquece dos pivetes).
Enquanto
tenta contra o vento
amarrar
os cabelos fartos
o
ônibus enfim aparece
e
ela deixa os cabelos pra lá.
Mas
o ônibus, com pressa,
ou
com preguiça de parar,
deixa
no ponto a mulher plantada
que,
lembrando-se das sacolas e dos pivetes,
fica
danada.
Mas
um consolo: devagar, bem atrás do ônibus,
surge
a salvação – um táxi!
Quase
a mulher nem precisa dar com a mão.
Quanta
gentileza!
O
táxi para bem ao seu lado.
Os
pivetes, decepcionados,
observam
as sacolas entrando no táxi.
— Rápido, moço! Estou com pressa.
No sinal, o ônibus parado,
e a mulher sorri, vingativa,
porque irá, ela, deixar o ônibus na estrada.
Mas o táxi entra num atalho
“— Por aqui é meio caminho andado!”
e a mulher vê o ônibus zarpar, incoformada.
O táxi deu a volta no quarteirão
subiu o viaduto e depois desceu
torceu-se todo pelas ruas
e a mulher de novo se lembrou de consultar o tempo
e a toda hora olhava pra trás
vendo se via o ônibus no rastro de vento
que deixava o táxi
(nem olhava mais pra frente).
— Chegamos! – acordou-a o motorista do táxi.
E a freada bruta foi necessária
para que não esbarrassem, mulher, sacolas e táxi,
no ônibus parado bem em frente à porta da casa.
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