quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Contradições do Capitalismo

 Isabel Pires

I

Uma mulher está no ponto de ônibus.

Uma mulher espera o ônibus

com uma sacola, não, duas

e enquanto pensa não vê as sacolas

não vê a demora

mas baixando o olhar

se lembra de consultar o tempo

e desde então não esquece

que o ônibus demora

(os pivetes estão de olho nas sacolas).

 

A mulher consulta o tempo

a toda hora no ponto do ônibus que demora

passa as mãos nos cabelos

porque lembrou-se que está ventando

e depois de consultar mais uma vez o tempo

resolve prender os cabelos

(por um momento esquece dos pivetes).

 

Enquanto tenta contra o vento

amarrar os cabelos fartos

o ônibus enfim aparece

e ela deixa os cabelos pra lá.

Mas o ônibus, com pressa,

ou com preguiça de parar,

deixa no ponto a mulher plantada

que, lembrando-se das sacolas e dos pivetes,

fica danada.

 

Mas um consolo: devagar, bem atrás do ônibus,

surge a salvação – um táxi!

Quase a mulher nem precisa dar com a mão.

Quanta gentileza!

O táxi para bem ao seu lado.

Os pivetes, decepcionados,

observam as sacolas entrando no táxi.

— Rápido, moço! Estou com pressa.

No sinal, o ônibus parado,

e a mulher sorri, vingativa,

porque irá, ela, deixar o ônibus na estrada.

 

Mas o táxi entra num atalho

“— Por aqui é meio caminho andado!”

e a mulher vê o ônibus zarpar, incoformada.

O táxi deu a volta no quarteirão

subiu o viaduto e depois desceu

torceu-se todo pelas ruas

e a mulher de novo se lembrou de consultar o tempo

e a toda hora olhava pra trás

vendo se via o ônibus no rastro de vento

que deixava o táxi

(nem olhava mais pra frente).

 

— Chegamos! – acordou-a o motorista do táxi.

E a freada bruta foi necessária

para que não esbarrassem, mulher, sacolas e táxi,

no ônibus parado bem em frente à porta da casa.


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