segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Soneto noturno soturno

Isabel Pires

 

Diz a noite que chegou pra perdoar o dia

e ainda trouxe consigo uma lua cheia.

Noite de negro inda querendo ser faceira

num baile que não tinha nenhuma alegria.

 

Noite de telhado onde reina a gataria

assustando a noite medrosa que se encolhia

debaixo do piscar de infinitas estrelas

que, serenas, participavam da falseta.

 

E a lua, trêmula, iluminando a sarjeta

dos bêbados babados que esperavam o dia

indiferentes à baba e à própria sujeira.

 

Se a noite reconhecesse – que bom seria –

que não tem brilho, é apenas uma noite feia

e falsa e só. Apenas uma noite fria.


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