Isabel Pires
As coisas. A noção de
espaço. A noção das coisas. As coisas existem. Um ônibus passa na rua. Quem
dirige o ônibus? Quem viaja dentro dele? As coisas existem interligadas aos
homens (e mulheres, nessa era de fala politicamente correta). Quem são os
homens (a noção de mulher aí incluída)? O que são os homens? A sensação (noção)
das pessoas que são e das pessoas que existem. Algumas pessoas são. Outras,
existem. Num teatro, os do palco são, os da plateia existem? Ou seria ao
contrário? As pessoas não podem ser, independentes das outras. Só podem,
independentemente, existir. As pessoas podem ser apenas por pouco. Mas a
existência é contínua. O que é, também existe, porque se não existisse, não
seria. O que é melhor? Ser? Existir?
São os filósofos que
sustentam o peso do mundo? Um pressuposto: professor de Filosofia deve ser
filósofo.
A era dos pressupostos. Tudo já foi concebido anteriormente, tudo já foi denominado, tudo já foi simbolizado e associado. Por isso, pressupõe-se. A descrição de uma rua (rua já é pressuposto – uma denominação, um símbolo, uma associação já feita há tempos – de um espaço cheio de casas – casas, outro pressuposto). Tudo pressuposto. A descrição:
“A rua banhava-se de sol.
Durante o dia, era muito movimentada. Por ela, passavam carros, ônibus,
caminhões, bicicletas, motos. As pessoas iam e vinham, atarefadas. À noite,
ficava quieta, submersa na escuridão”.
Ou:
“Um espaço alongado, com duas fileiras de construções, uma de cada lado, interrompida a espaços regulares por alongações idênticas, que se cruzavam. Durante uma boa parte do tempo, tudo era iluminado por intensa luz vinda do alto, originada de um astro celeste. Muitos seres cruzavam o espaço, em todas as direções, mantendo-se, porém, enquanto caminhavam, nas beiradas ao pé das construções. Essas construções possuíam aberturas quadradas, maiores e menores, revestidas ora por placas de madeira, ora de vidro. Ao centro, transitavam pesadas estruturas metálicas, com aberturas quadradas semelhantes às das construções, revestidas de placas de vidro. Alguns seres se movimentavam dentro dessas estruturas, capazes de os levar de um ponto a outro. Ao se extinguir a luz emanada do astro celeste, todo o espaço alongado, cheio de construções, ficava imerso em profunda massa escura, iluminada porém, de espaço a espaço, por enormes cilindros de concreto, mais altos que as construções, porém mais finos, que possuíam na extremidade pequenas bolas cintilantes”.
Diriam os platônicos: “A essência é a mesma”. Mas o que diriam os céticos, os sofistas? As plantas que falam?
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