segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Mãos

Isabel Pires

 

Há vários tipos de mãos:

mãos bonitas

mãos delicadas

mãos grosseiras

calejadas.

Mãos generosas

que se abrem

oferecendo palmas

cortadas de destino,

de vida e de morte.

Mãos mesquinhas,

cerradas

em punhos sovinas.

Mãos nervosas,

agitando-se

ao menor estímulo

de vida.

Mãos trêmulas,

mãos frias.

Mãos grandes e morenas.

Mãos brancas e pequenas.

Mãos. Mãos. Muitas mãos.

Há mãos impacientes,

peludas, quentes.

Mãos inocentes.

Mãos inertes, patéticas.

Mãos incoerentes.

Mãos de espera,

estendidas, abertas.

Mãos austeras,

severas.

Mãos bobas, inúteis.

Mãos fúteis,

se alongando

em unhas cuidadosamente

domesticadas,

geralmente compridas e pintadas.

Mãos entediadas

vazias

ou cheias de nada.

Mãos humildes, mansas,

descansadas.

Mãos cheias de esperança

(mãos de criança).

Mãos cansadas,

desesperançadas.

Mãos desesperadas.

Mãos rudes.

Mãos estúpidas.

Mãos mudas.

Mãos nuas.

Mãos simples.

Mãos complicadas,

cheias de ouro e de prata.

Mãos dramáticas.

Mãos simpáticas,

se agitando num adeus.

Mãos idólatras,

adorando um deus.

Mãos. Mãos. Muitas mãos.

Mãos ocupadas.

Mãos veladas.

Mãos ousadas.

Mãos desafiadoras, de briga,

que lutam pela vida,

e onde pulam veias

que latejam cheias

de um líquido vermelho,

denso, que chamam de sangue.

Mãos arrogantes.

Mãos elegantes.

Mãos. Mãos. Muitas mãos.

Mãos culpadas,

pesadas,

difíceis de carregar.

Mãos suadas,

que carregam velhos medos.

Mãos suaves, sem receios.

Mãos cheias de meneios.

Mãos insensatas,

mãos agitadas.

Mãos carinhosas.

Mãos caridosas.

Mãos amigas, tão antigas.

Mãos leves, finas

e ladinas.

Mãos difíceis

de alcançar.

Mãos insuportáveis

de segurar.

Mãos preguiçosas.

Mãos nojentas,

pegajosas,

molengas.

Mãos. Mãos. Muitas mãos.

Mas as melhores delas,

as melhores mãos,

são aquelas. Aquelas…

as mãos humanas. 


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